ENERGIA SUL-AMERICANA

Virada Renovável: a corrida pela autonomia energética na América do Sul

Entre investimentos bilionários, infraestrutura renovável e disputa por minerais críticos, a região acelera a revolução da energia limpa e redefine seu papel no cenário global
Painel solar fotovoltaico em primeiro plano com uma fileira de turbinas eólicas (aerogeradores) ao fundo, em um campo de trigo sob um céu azul com nuvens, ilustrando a revolução da energia na América do Sul.

A transição energética na América do Sul deixou de ser promessa e tornou-se um movimento estrutural em pleno amadurecimento. O continente, antes visto apenas como fornecedor de recursos naturais, reposiciona-se no mapa geopolítico como potência renovável em ascensão. O posicionamento atual é direto: a autonomia energética não é apenas uma bandeira ambiental, é a base da nova competitividade global. A maturidade tecnológica da energia solar e eólica reduziu custos, elevou a atratividade econômica e abriu espaço para um modelo de crescimento sustentado por eletricidade limpa, abundante e cada vez mais estratégica.

As projeções mudam a escala do debate. Relatórios da Wood Mackenzie apontam que a América do Sul deve adicionar cerca de 160 GW de capacidade fotovoltaica entre 2025 e 2034. Esse salto pode viabilizar o fenômeno conhecido como power-shoring, que é a migração de indústrias intensivas em energia para regiões onde a eletricidade é barata, estável e majoritariamente renovável. A oportunidade é concreta, mas depende de uma condição simples e exigente: infraestrutura capaz de escoar e integrar essa nova capacidade.

Infográfico Top 10 paises energias renováveis. Dados da consultoria Enerdata que, anualmente, publica um estudo sobre a produção e consumo de energia a nível mundial e o seu impacte ambiental.

A tecnologia torna a energia limpa inevitável

A revolução renovável na América do Sul tem um motor simples: ficou mais barato produzir energia limpa. A consultoria Wood Mackenzie projeta que o custo da energia solar deve cair cerca de 42% até 2035, graças a ganhos tecnológicos e à escala industrial. Com isso, a região deixou de competir com térmicas e hidrelétricas apenas no campo ambiental. Em muitos cenários, já supera ambos em preço, mesmo sem subsídios. É essa combinação de recursos naturais, inovação e volume de produção que reposiciona o continente na disputa global por energia barata e sustentável.

Armazenamento e confiabilidade: o elo que fecha a conta

O salto mais decisivo da década vem do armazenamento. Sistemas de baterias começam a resolver o velho problema da intermitência e dão mais estabilidade às redes elétricas. No Chile, a SMA Solar Technology AG está instalando um sistema de 228 MW e 918 MWh acoplado a uma planta solar, reforçando a segurança da rede e abrindo espaço para mais renováveis. E os projetos de grande porte já ultrapassaram a fase de teste. O parque solar Shangri-La, na Colômbia, com 201 MWp e geração estimada de 403,7 GWh por ano, mostra como capital e tecnologia começam a operar em escala real.

Infraestrutura e capital ainda não acompanham o ritmo

Mesmo com avanços sólidos, dois gargalos ainda travam o potencial da região. O primeiro é a transmissão. Brasil e Chile já enfrentam curtailment, quando a rede não consegue absorver toda a energia produzida. Cada megawatt desperdiçado reduz a confiança dos investidores e limita a expansão. O segundo gargalo é o capital. A IRENA estima que a América do Sul atraiu cerca de US$ 58 bilhões em investimentos em 2024, um volume robusto, mas distante do que a transição global exige. O consenso entre analistas é claro: o continente precisa ampliar sua fatia nesse fluxo para acelerar a virada energética.

Problemas: Infraestrutura precária, conexões clandestinas e limitações em transmissão e armazenamento (Imagem: Pedro Piegas / PMPA)
Problemas: Infraestrutura precária, conexões clandestinas e limitações em transmissão e armazenamento (Imagem: Pedro Piegas / PMPA)

Quem lidera e quem precisa acelerar a transição

Países com performance consolidada

  • Brasil: É o gigante da região, liderando em capacidade absoluta e diversidade. Sua matriz é a mais diversificada, com o maior volume de energia renovável não hídrica da América Latina. Conforme dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), a capacidade de geração centralizada e distribuída do país ultrapassou 200 GW em 2024, com mais de 85% dessa potência sendo renovável. Segundo a Wood Mackenzie, o Brasil e o Chile responderão juntos por 78% das novas instalações até 2034. A força da Geração Distribuída (GD), que democratiza a produção em telhados e pequenos terrenos, é um fenômeno notável, representando aproximadamente 55% da potência solar total e transformando o Brasil no principal mercado renovável da América do Sul.

  • Chile: É a referência em energia solar e armazenamento. Graças a uma regulação que estimula o desenvolvimento de projetos utility-scale (grande porte), o país tem rapidamente alterado sua matriz. Conforme dados da Associação Chilena de Energias Renováveis e Armazenamento (ACERA), a participação de energia renovável não convencional (NCRE) na geração total atingiu 39,5% em agosto de 2025.

  • Uruguai: Um caso de sucesso notável. Políticas ambiciosas permitiram que o país atingisse uma matriz elétrica em que cerca de 99% provêm de fontes limpas, com destaque para a energia eólica e hidrelétrica. De acordo com o Balanço Energético Nacional (BEN) 2024, o Uruguai serve como um benchmark de como a determinação política pode transformar a matriz em um curto espaço de tempo, garantindo independência e resiliência.

O Nordeste é responsável por 93% de toda energia eólica gerada no Brasil - Imagem: ABEEólica/Divulgação
O Nordeste é responsável por 93% de toda energia eólica gerada no Brasil – Imagem: ABEEólica/Divulgação

Os Países em Fase de Largada e Seus Desafios

Enquanto os líderes colhem os frutos, outros países, apesar do potencial, ainda enfrentam barreiras regulatórias, econômicas ou de infraestrutura que freiam o desenvolvimento.

  • Argentina: Possui excelentes recursos eólicos (Patagônia) e solares, mas a instabilidade macroeconômica e a descontinuidade regulatória são um grande entrave. Conforme dados de agosto de 2025, o país elevou sua capacidade solar instalada para 2,19 GW. Apesar desse avanço, o ritmo ainda é modesto para o potencial da região, e a forte dependência do gás natural, somada à falta de segurança jurídica e financeira, dificulta a atração de capital para projetos de grande escala.

  • Colômbia e Peru: A Colômbia vem acelerando a diversificação, impulsionada pela vulnerabilidade de sua matriz (cerca de 70% hidráulica). Estimativas setoriais indicam que a capacidade não convencional do país (cerca de 1,9 GW) crescerá mais de 35% em 2025. Contudo, essa forte dependência do hidrelétrico e a necessidade de fortalecer as redes de transmissão em áreas remotas continuam sendo obstáculos que, assim como no Peru, exigem pesados investimentos e maior estabilidade política.

Projeção de futuro: o que esperar até 2050

Segundo a IRENA, se a América do Sul conseguir acelerar a transição, com investimentos, modernização de infraestrutura e integração real de políticas, a região poderá gerar até 12 milhões de empregos no setor de energia limpa e alcançar crescimento adicional no PIB regional de até 1,1% ao ano até 2050.

Além disso, o ritmo atual de instalação e os avanços tecnológicos indicam que a energia limpa deixará de ser coadjuvante: será o pilar do sistema energético sul-americano. Indústrias intensivas em energia, mercados de hidrogênio verde, exportação de energia limpa e cadeias produtivas de tecnologias renováveis, tudo isso passa a ser competitivo no novo mapa continental.

Para investidores, governos e lideranças corporativas, o momento é de definir estratégia. A vantagem de quem entrar cedo, com visão de longo prazo, será a captura de valor em uma economia global cada vez mais orientada ao baixo carbono, ao custo de energia eficiente e à resiliência energética.

Uma nova potência renovável em construção

A transição energética na América do Sul deixou de ser promessa. Tornou-se processo concreto, com escala, dinamismo e força transformadora. A convergência entre recursos naturais abundantes, maturidade tecnológica, fluxos de investimento e demanda por competitividade econômica cria uma janela histórica de oportunidade.

Mas o sucesso dessa revolução depende de um passo decisivo: integrar. Não basta gerar, é preciso transmitir, armazenar, industrializar, regular e planejar. Se essa engrenagem for montada com seriedade, a América do Sul não estará apenas surfando a onda da energia limpa: estará definindo sua crista, tornando-se referência global de sustentabilidade, inovação e competitividade. O futuro energético sul-americano está sendo definido agora. A oportunidade é rara e a janela para transformá-la em vantagem duradoura não permanecerá aberta por muito tempo. E para quem estiver pronto para jogar nesse novo tabuleiro, as peças já estão sendo colocadas.

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