MUDANÇA DE ROTA

Motores a Hidrogênio: por que GM, Stellantis e Honda desistiram do setor

A decisão da General Motors e a debandada de outras montadoras revelam o custo da ineficiência e prova que a eletricidade a bateria venceu a corrida pela liderança da mobilidade de passageiros
Veículo Chevrolet Equinox Fuel Cell (célula de hidrogênio) cinza em exposição da GM, com executivo no pódio, sob o slogan "An American Revolution".

A escolha da General Motors (GM) de encerrar o desenvolvimento da sua próxima geração de células de combustível a hidrogênio em 2025, via a plataforma Hydrotec, se tornou mais do que uma mudança de rota. É um marco estratégico no tabuleiro da mobilidade global. Segundo o próprio comunicado da GM, a empresa vai realocar recursos para baterias de alta performance, recarga elétrica e veículos totalmente elétricos (BEV).

Esse movimento está alinhado ao que o mercado já vinha mostrando. De acordo com dados recentes da BloombergNEF e da IEA, veículos elétricos e híbridos plug-in continuam ganhando escala, enquanto fabricantes como BYD, Volkswagen e Tesla consolidam plataformas baseadas em baterias. O recuo da GM no hidrogênio não é isolado: outras montadoras globais também já reduziram ou descontinuaram projetos de célula a combustível, priorizando BEVs e híbridos por viabilidade econômica, infraestrutura disponível e competitividade energética.

Funcionamento de veículos movidos a hidrogênio

Por que a bateria vence o hidrogênio no mercado de massa

Economia de escala e densidade energética

A maturidade da cadeia de suprimentos de baterias e a produção em larga escala reduziram o custo por kWh e ampliaram a densidade energética. Conforme estudos da BloombergNEF, o preço médio das baterias caiu mais de 85% desde 2010, fortalecendo o BEV como rota dominante para a mobilidade de massa.

O hidrogênio, por outro lado, enfrenta uma limitação estrutural. O ciclo elétrico para hidrogênio e de volta à eletricidade mantém perdas significativas de eficiência, desde a conversão, compressão e transporte até a reconversão na célula de combustível. Esse gargalo técnico eleva o custo por quilômetro dos veículos com célula de combustível (FCEV), deixando-os em desvantagem competitiva no mercado de passageiros.

Rede de recarga escalando e o hidrogênio estagnado

A infraestrutura reforça a diferença. A GM reconheceu a escassez de postos de hidrogênio como parte da decisão de abandonar o Hydrotec. Enquanto redes de recarga elétrica se multiplicam globalmente, incluindo opções domésticas, públicas e ultra-rápidas, a infraestrutura de hidrogênio segue estagnada. Esse desequilíbrio logístico cria uma vantagem sistêmica para os BEVs.

O Brasil possui um número extremamente limitado de postos de recarga de hidrogênio atualmente
O Brasil possui um número extremamente limitado de postos de recarga de hidrogênio atualmente – Foto: Brasilia, 2025

A guinada vista na GM ecoa em outros grupos automotivos. A Stellantis anunciou em 2025 o fim do seu programa de células de combustível, cancelando vans FCEV e suspendendo produções previstas na Europa. Segundo a própria companhia, a decisão se deve à ausência de sustentabilidade econômica em médio prazo.

No Japão, a Honda descontinuou o Clarity Fuel Cell no varejo e, seguindo uma estratégia multisetorial, realocou seu foco do carro de passeio para outras aplicações. A montadora está investindo pesadamente no desenvolvimento de seu módulo de Célula de Combustível de Próxima Geração para produção em 2027, mas primariamente para veículos comerciais, maquinário de construção e geradores de energia estacionários. Já a Toyota mantém uma estratégia mais diversificada, preservando o hidrogênio em nichos e mercados específicos, mas reforçando híbridos e PHEVs como espinha dorsal.

O custo de oportunidade da abordagem multicanal

Para montadoras globais, sustentar simultaneamente programas de P&D em baterias, híbridos e hidrogênio elevava o custo de capital e fragmentava escala. O recuo em hidrogênio para veículos leves é, essencialmente, uma reorganização industrial guiada pela eficiência na alocação de capital. Em um mercado onde BEVs e híbridos plug-in crescem com força, o custo de oportunidade de investir em uma tecnologia com infraestrutura inviável pesa.

Motor a hidrogênio da Honda - Foto: Divulgação
Motor a hidrogênio da Honda – Foto: Divulgação

Segundo a IEA, as vendas globais de elétricos ultrapassaram 14 milhões de unidades em 2023, um salto de mais de 35 por cento em apenas um ano. Esse avanço consolidou de vez o papel das baterias como núcleo da competitividade automotiva. Empresas como BYD e Tesla ampliam vantagem por integração vertical total, que vai da célula ao software. Esse modelo acelera a inovação, reduz custos e fortalece a escalabilidade.

Nesse novo arranjo, o hidrogênio continua relevante, mas dentro de fronteiras tecnológicas claras. Ele mantém vocação para transporte pesado, logística de longa distância e aplicações industriais de alta demanda energética. Para o segmento de passageiros, porém, a equação está praticamente resolvida: elétricos e híbridos plug-in oferecem melhor eficiência, infraestrutura mais ampla e custo total de propriedade mais competitivo.

Estratégia de foco e domínio da cadeia elétrica

A mudança de rota de GM, Stellantis e Honda não é um gesto isolado. É a consolidação de uma nova arquitetura industrial que já se impôs. A eletrificação por bateria deixou de ser uma aposta para se tornar padrão, ditando a alocação de bilhões de dólares em P&D. Para quem participa da cadeia automotiva, incluindo fornecedores, montadoras, investidores e reguladores, a mensagem é inequívoca: a rota dominante para mobilidade de massa está nos elétricos e híbridos plug-in, um caminho que oferece retorno de capital e escalabilidade no curto prazo.

O hidrogênio, longe de desaparecer, assume seu lugar como tecnologia estratégica de nicho. Sua complexidade logística e alto custo de produção (para veículos leves) o limitam a aplicações de alto consumo energético e frotas centralizadas, como transporte pesado e logística de longa distância. O tabuleiro global mostra que a vantagem competitiva não será mais determinada pela invenção da próxima grande tecnologia de energia, mas sim pela eficiência na execução e domínio da cadeia de valor da eletrificação.

O futuro da indústria automotiva se desenha em uma corrida que não é mais pelo domínio do hidrogênio, mas sim por quem entrega o elétrico mais acessível, prático e escalável. A liderança será daquelas companhias que dominarem a produção de baterias, a infraestrutura de recarga e a integração de software. Para o segmento de transporte de passageiros, esse caminho está claro e bem definido, consolidando a eletrificação por bateria como o pilar da mobilidade sustentável global.

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